
O custo humano que as máquinas aceitam pagar
Como as condições de trabalho pautadas por algoritmos criam jornadas disfuncionais pela falta de transparência
Por Pedro Franco
O despertador deixou de ser o principal marcador para dar início a jornada de trabalho do dia. Para milhões de brasileiros, o dia começa com a simplicidade de uma notificação, ou um repentino aumento de potencial de ganhos em uma tela de cinco polegadas. Não existe a figura física de um chefe, um relógio na parede para olhar, esperando que corra mais rápido, ou diretrizes explícitas em um mural.
O ritmo da produção, o valor da remuneração e a própria estabilidade psicológica de trabalhadores de múltiplos setores estão sendo ditados por linhas de código. É a algoritmização do trabalho: um modelo de gestão baseado em inteligência artificial que transforma a atividade laboral em um jogo cujas regras mudam constantemente, sem aviso prévio.
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Imagem: Pedro Franco
Contudo, encarar esse cenário exige compreender que a tecnologia não é uma força da natureza imutável. Como define o Professor André Campos Rocha, doutor e pesquisador da área do trabalho e digital, "tecnologias, enquanto meios de resolução de problemas, sempre têm uma orientação social". Isso significa que os softwares incorporam e absorvem diretamente os valores e princípios de seus criadores. O problema central não reside nas linhas de código em si, mas sim na lógica econômica que as financia, um arranjo focado na extração massiva de dados e na vigilância constante para maximizar margens de lucro, muitas vezes operando em um vácuo regulatório.
A PRESSÃO INVISÍVEL NA PONTA DOS DEDOS

Foto: Pedro Franco
Para quem atua nos bastidores da economia da atenção, a ditadura do algoritmo cobra um preço diário na saúde mental e na capacidade criativa. As métricas de engajamento, as atualizações sazonais nos termos de distribuição de conteúdo das Big Techs e a opacidade dos critérios de entrega criaram um ambiente de instabilidade crônica.
Eduarda Cardoso, supervisora de marketing, vivencia esse cenário em sua rotina profissional. Seu relato expõe a fratura existente entre a relevância do conteúdo e a tirania do alcance métrico:
"A algoritmização das plataformas altera profundamente meu trabalho, já que passamos a produzir cada vez mais orientados pela lógica da performance e do alcance, e não necessariamente pela realidade do que é mais relevante ou significativo. As decisões passam a ser influenciadas por métricas, tendências e critérios que muitas vezes não são totalmente transparentes, o que gera insegurança sobre as escolhas feitas e sobre os resultados esperados. A sensação é de que o tempo disponível para planejar, criar e refletir fica cada vez mais apertado, porque há uma pressão permanente por produzir mais, mais rápido e com melhor desempenho."
O depoimento de Eduarda evidencia o fenômeno que o sociólogo Ricardo Antunes conceitua em sua obra Icebergs à deriva (2023): a transformação do ambiente virtual em uma linha de montagem intermitente, onde o trabalhador é impelido a se autoflagelar produtivamente para manter relevância em um ecossistema que penaliza a pausa. O tempo de reflexão, crucial para o desenvolvimento de estratégias de comunicação consistentes, é esmagado pela urgência do tempo real.
Essa volatilidade técnica é sentida de forma ainda mais direta por quem gerencia a execução operacional das campanhas de tráfego pago e a conversão de leads. Felipe Meira, assistente de marketing, lida diariamente com a imprevisibilidade técnica gerada pelas mutações das diretrizes das plataformas:
"Seu entendimento na mudança de público, jornada, tráfego é o que deixa o meu trabalho imprevisível, entender como determinado movimento de escolhas fazem com os resultados sejam inesperados."
A imprevisibilidade citada por Felipe desmistifica a narrativa corporativa de que a inteligência artificial e a análise de dados trazem exatidão matemática para a gestão. Na prática, a opacidade dos algoritmos proprietários transforma o trabalho em um ambiente de constante tateamento no escuro, onde o profissional se torna um eterno refém da tentativa e erro, gerando níveis crônicos de ansiedade organizacional.

Imagem: Pedro Franco
A GIG ECONOMY E A VULNERABILIDADE NAS RUAS
Se nos escritórios a gestão algorítmica dita o ritmo da mente, nas ruas ela dita o deslocamento físico e a própria sobrevivência econômica. O fenômeno da uberização retirou do trabalhador as garantias básicas e o submeteu a um painel de controle cujos critérios de precificação e punição permanecem trancados pelas corporações de tecnologia.
Marco Antônio Inácio Moraes atua como motorista de aplicativo e sente na pele o peso de ter sua rotina moldada por uma interface automatizada. Para ele, a autonomia prometida pelos comerciais das plataformas se dissolve na realidade das ruas:
"Influi no direcionamento das minhas decisões, a hora que posso parar, meus dias de descanso, até se é possível ter um intervalo."
Marco Antônio resume uma complexa relação de subordinação digital. O motorista não decide de forma soberana suas rotas ou suas pausas, ele reage aos estímulos econômicos gamificados criados pela IA da plataforma. O aplicativo induz o trabalhador a aceitar jornadas exaustivas sob a ameaça implícita de quedas em suas taxas organizacionais.
Essa realidade encontra amparo nos estudos de Christophe Dejours em A Loucura do Trabalho (2018), que argumenta que quando a organização impede o exercício da autonomia do indivíduo, substituindo-a por metas externas rígidas, o sofrimento psíquico se instala.

A PERSPECTIVA DA CIÊNCIA E A SOCIEDADE EXCITADA
Imagem: Pedro Franco
Para compreender o impacto sistêmico dessa arquitetura digital sobre as mentes dos trabalhadores, o Professor André adverte que o debate contemporâneo precisa ir além da superfície técnica. O atual cenário se baseia no que a socióloga Shoshana Zuboff conceitua como "capitalismo de vigilância". Trata-se de um ecossistema "alicerçado na extração de 'superávit comportamental' dos usuários com o objetivo de auferir lucros por meio dessas informações". Uma engenharia iniciada no Vale do Silício pelo Google e Facebook, mas que hoje colonizou todas as profissões.
Essa onipresença de telas e notificações cria consequências biológicas e cognitivas devastadoras. Conforme explica o Professor André:
"Na era digital estamos cercados por telas a todo momento, seja qual for o dispositivo: as telas mediam todas as nossas relações, relações de trabalho, pessoais, profissionais, entre outras, em uma mescla indistinta das esferas pessoal e profissional, do trabalho e do tempo livre. Com isso, produz-se aquilo que um filósofo alemão chamado Cristoph Türcke chama de 'sociedade excitada', ou seja, uma sociedade marcada por estímulos audiovisuais constantes, onipresentes, que, em seu conjunto, interferem na nossa fisiologia, na nossa capacidade de concentração, no foco, na nossa rotina como um todo."
O pesquisador complementa que o esgotamento mental gerado por essa "sociedade da desatenção" destrói as faculdades mentais essenciais para o desenvolvimento criativo e imaginativo. Essa asfixia cognitiva ajuda a esclarecer, em nível teórico e filosófico, o crescimento alarmante nos índices de transtornos psicológicos ocupacionais.
Os dados estruturados de fontes oficiais confirmam o diagnóstico empírico do especialista: conforme levantamento jornalístico publicado pelo portal G1, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por motivos de saúde mental em 2025, estabelecendo um recorde histórico pela segunda vez em dez anos.
Do ponto de vista estritamente técnico, as Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) trazem uma contradição. O Professor André pontua que "nunca foi tão fácil registrar e analisar informações sobre o processo de trabalho". Sob uma orientação de proteção, esses mesmos dados poderiam rastrear excessos de jornadas, tempos ociosos não pagos e penalizações corporativas abusivas, servindo como ferramenta para fazer com que os direitos trabalhistas fossem garantizados de forma automatizada e eficiente.
No entanto, as corporações proprietárias subvertem essa facilidade de registro. Elas utilizam a promessa de "autonomia" das plataformas para transferir todos os riscos ao trabalhador, sob o discurso corporativo de que funcionam apenas como intermediárias de serviços, eximindo-se de qualquer vínculo empregatício ou responsabilidade pelo bem-estar e saúde de quem gera sua riqueza.
A RECONSTRUÇÃO DAS PLATAFORMAS
Se o diagnóstico aponta para um cenário de precarização acentuada, é necessário se debruçar sobre os experimentos práticos que desafiam a lógica hegemônica do Vale do Silício. A resposta para a humanização das interfaces profissionais passa pela mudança radical nas forças sociais que orientam o design das tecnologias.
"Discute-se modelos alternativos: cooperativismo de plataforma, plataformas de propriedade dos trabalhadores, economia solidária", relata o Professor André. A premissa central dessas iniciativas é redirecionar a potencialidade técnica das redes digitais para fortalecer laços de solidariedade, governança democrática, inclusão e distribuição equitativa de renda.
A história da América Latina guarda precedentes ousados nesse sentido, como o projeto Cybersyn desenvolvido durante o governo de Salvador Allende no Chile no início dos anos 1970. Utilizando os preceitos da cibernética, o sistema tinha o objetivo de gerir de forma coordenada os bens públicos do Estado em estreita ligação com a autonomia dos movimentos de operários nas fábricas. Embora o projeto tenha sido interrompido pelo golpe militar de 1973, ele permanece como marco de que softwares podem ser desenhados sob princípios de cooperação, e não de exploração.
No cenário contemporâneo, relatórios de mídias especializadas como o Digilabour revelam que o cooperativismo de plataforma no Brasil e na Argentina já se traduz em ações concretas. O Professor André destaca dois exemplos marcantes dessa experimentação nacional:
Núcleo de Tecnologia do MTST: Associado ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto de São Paulo, o projeto desenvolve softwares sob a ótica das demandas reais dos trabalhadores em seus territórios, promovendo a soberania digital e a autodeterminação. Entre suas criações está o aplicativo "Contrate Quem Luta" e o desenvolvimento de jogos eletrônicos críticos.
Señoritas Courier: Uma plataforma de entregas gerenciada e de propriedade exclusiva de mulheres trabalhadoras, que desenha sua dinâmica operacional costurando a divisão justa de receitas sob uma perspectiva interseccional de gênero e raça.
Para além das saídas mercadológicas, a emancipação dos trabalhadores também depende do letramento digital, um processo no qual as universidades públicas cumprem uma função social indispensável por meio de projetos de extensão interdisciplinares que unificam as ciências exatas e as humanas para traduzir o funcionamento oculto das IAs corporativas à sociedade civil.
Movimentos autônomos organizados "desde baixo", como as históricas paralisações de entregadores apelidadas de "Breque dos Apps", provam que os trabalhadores possuem plena consciência das assimetrias contidas nos códigos proprietários. Redes internacionais como o projeto Fairwork, que lançou relatório de avaliação sobre o cenário brasileiro em 2025, auxiliam na consolidação de parâmetros globais focados em estabelecer o que constitui um trabalho digital digno e ético.

A RETOMADA DO FUTURO
A superação da crise gerada pela algoritmização do trabalho não reside na rejeição da tecnologia ou no isolamento do ambiente digital. Como pontua a análise de Alfredo Massi publicada no portal JOTA (2025), os desafios da gestão algorítmica por IA nas relações de trabalho exigem respostas regulatórias robustas do Estado. No Brasil atual, esse embate ganha corpo por meio da tramitação do Projeto de Lei 2338/2023, conhecido popularmente como o "PL da IA".
Pesquisas recentes indicam que os trabalhadores mais afetados pelas inteligências artificiais generativas estão se mobilizando politicamente para incluir suas pautas na redação final da lei. O Professor André elucida que essas reivindicações coletivas se sustentam em três eixos inegociáveis:
"As reivindicações desses trabalhadores giram em torno de três princípios: consentimento, transparência e remuneração justa, ou seja, que eles possam decidir se suas obras e criações possam ser usadas no treinamento de modelos de IA, que haja transparência quanto aos dados utilizados nesses modelos e em sua governança e que se criem mecanismos de remuneração desses trabalhadores pelo uso de suas obras."
As soluções encontradas pelas pesquisas do meio econômico e social demonstram que inovação dissociada da inclusão dos trabalhadores resulta, inevitavelmente, em precarização pura e simples. A reorientação de algoritmos cruéis para sistemas baseados na ética e na saúde coletiva depende das lutas políticas e de pactos sociais maduros. Somente ao desligar o loop exaustivo do produtivismo cego será possível resgatar o direito à dignidade, à criatividade e ao tempo na era da Inteligência Artificial.